Há cerca de vinte anos, quando criamos a revista Momento Capixaba, o propósito nunca foi apenas fazer uma revista. A ideia era muito maior: ajudar o capixaba a enxergar valor na própria terra.
Naquela época, eu tinha a sensação de que nós mesmos conhecíamos pouco o Espírito Santo e, pior, valorizávamos pouco aquilo que era nosso. Foi por isso que começamos a contar histórias de atletas capixabas, divulgar nossas praias, nossas montanhas, nossa gastronomia, nossa cultura e nossas empresas. O objetivo era simples: despertar orgulho.
Anos depois, levei esse mesmo propósito para a marca Praia.
Hoje isso parece comum, mas quando começamos a produzir camisetas com temas do Espírito Santo, era algo praticamente inexistente. O mercado consumia estampas de Copacabana, Ipanema e Leblon. As grandes referências eram marcas cariocas, e parecia natural vestir a identidade de outro lugar.
Nunca me esqueço da primeira vez que apresentei uma camiseta estampada com o Convento da Penha para um lojista. A resposta foi imediata:
“Isso não vai vender. Convento da Penha é coisa para turista.”
Mas eu acreditava justamente no contrário.
Se os cariocas tinham orgulho de vestir o Rio de Janeiro, por que nós não poderíamos vestir o Espírito Santo?
Persistimos.
Hoje, felizmente, essa realidade mudou. Você anda pelas ruas e vê pessoas usando camisetas com o Convento da Penha, Pedra Azul, praias capixabas, montanhas, bairros e paisagens do nosso estado. O orgulho de ser capixaba cresceu.
E isso me deixa extremamente feliz.
Mas existe um ponto em que ainda continuamos presos ao passado.
O futebol.
Talvez muita gente nunca tenha parado para pensar nisso, mas o futebol não é apenas entretenimento. Ele também constrói identidade.
O antropólogo Roberto DaMatta escreveu que o futebol é um dos grandes rituais da sociedade brasileira, um espaço onde as pessoas constroem pertencimento e identidade coletiva. O ensaísta José Miguel Wisnik, em Veneno Remédio, também mostra como o futebol ultrapassa o esporte e ajuda a contar a história cultural do Brasil.
Quando torcemos por um clube, não escolhemos apenas um escudo. Escolhemos fazer parte de uma comunidade.
E é justamente aí que mora a minha reflexão.
No Espírito Santo, crescemos considerando normal torcer para clubes do Rio de Janeiro. Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo fazem parte da infância de milhares de capixabas.
Isso aconteceu por razões históricas. A proximidade geográfica, as transmissões das rádios e da televisão fizeram com que o futebol carioca ocupasse um espaço enorme dentro do nosso estado.
Mas talvez tenha chegado a hora de fazermos uma pergunta diferente.
Será que isso ainda faz sentido?
Hoje o Espírito Santo vive um momento completamente diferente daquele de vinte anos atrás. Somos frequentemente apontados entre os estados com melhor qualidade de vida do Brasil. Pessoas de todo o país escolhem morar aqui. Nossa gastronomia é reconhecida. Nossas praias, montanhas e cidades recebem cada vez mais visitantes.
O orgulho de sermos capixaba cresceu.
Mas, quando chega a hora do futebol, parece que esquecemos tudo isso.
Continuamos emprestando nossa paixão para clubes de outros estados.
Não estou dizendo que alguém deva abandonar o time pelo qual torceu a vida inteira. Futebol também é memória afetiva.
O que proponho é outra coisa.
Que o capixaba passe a olhar para os clubes daqui com carinho.
Que as famílias levem seus filhos aos estádios.
Que empresários apoiem nossos clubes.
Que o poder público compreenda o futebol como um patrimônio cultural e econômico.
E, principalmente, que cada um de nós entenda que fortalecer o futebol capixaba também é fortalecer a identidade do Espírito Santo.
Se conseguimos aprender a vestir nossa terra com orgulho, por que não podemos aprender a torcer por ela também?
Eu continuo acreditando na mesma ideia que me moveu há vinte anos.
O desenvolvimento de um estado não acontece apenas pela economia ou pela infraestrutura.
Ele também acontece quando seu povo aprende a admirar aquilo que é seu.
Foi assim com a revista.
Foi assim com a marca Praia.
E acredito que ainda pode ser assim com o nosso futebol.
Porque identidade não nasce pronta.
Ela é construída todos os dias.
E talvez esteja na hora de construirmos também uma identidade futebolística verdadeiramente capixaba.
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