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O futebol também constrói quem nós somos.

Depois de aprender a vestir o Espírito Santo com orgulho, talvez tenha chegado a hora de aprender a torcer por ele também.

23/07/2026 às 14h03 Atualizada em 23/07/2026 às 14h13
Por: Hugo Vercoza
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Há cerca de vinte anos, quando criamos a revista Momento Capixaba, o propósito nunca foi apenas fazer uma revista. A ideia era muito maior: ajudar o capixaba a enxergar valor na própria terra.

Naquela época, eu tinha a sensação de que nós mesmos conhecíamos pouco o Espírito Santo e, pior, valorizávamos pouco aquilo que era nosso. Foi por isso que começamos a contar histórias de atletas capixabas, divulgar nossas praias, nossas montanhas, nossa gastronomia, nossa cultura e nossas empresas. O objetivo era simples: despertar orgulho.

Anos depois, levei esse mesmo propósito para a marca Praia.

Hoje isso parece comum, mas quando começamos a produzir camisetas com temas do Espírito Santo, era algo praticamente inexistente. O mercado consumia estampas de Copacabana, Ipanema e Leblon. As grandes referências eram marcas cariocas, e parecia natural vestir a identidade de outro lugar.

Nunca me esqueço da primeira vez que apresentei uma camiseta estampada com o Convento da Penha para um lojista. A resposta foi imediata:

“Isso não vai vender. Convento da Penha é coisa para turista.”

Mas eu acreditava justamente no contrário.

Se os cariocas tinham orgulho de vestir o Rio de Janeiro, por que nós não poderíamos vestir o Espírito Santo?

Persistimos.

Hoje, felizmente, essa realidade mudou. Você anda pelas ruas e vê pessoas usando camisetas com o Convento da Penha, Pedra Azul, praias capixabas, montanhas, bairros e paisagens do nosso estado. O orgulho de ser capixaba cresceu.

E isso me deixa extremamente feliz.

Mas existe um ponto em que ainda continuamos presos ao passado.

O futebol.

Talvez muita gente nunca tenha parado para pensar nisso, mas o futebol não é apenas entretenimento. Ele também constrói identidade.

O antropólogo Roberto DaMatta escreveu que o futebol é um dos grandes rituais da sociedade brasileira, um espaço onde as pessoas constroem pertencimento e identidade coletiva. O ensaísta José Miguel Wisnik, em Veneno Remédio, também mostra como o futebol ultrapassa o esporte e ajuda a contar a história cultural do Brasil.

Quando torcemos por um clube, não escolhemos apenas um escudo. Escolhemos fazer parte de uma comunidade.

E é justamente aí que mora a minha reflexão.

No Espírito Santo, crescemos considerando normal torcer para clubes do Rio de Janeiro. Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo fazem parte da infância de milhares de capixabas.

Isso aconteceu por razões históricas. A proximidade geográfica, as transmissões das rádios e da televisão fizeram com que o futebol carioca ocupasse um espaço enorme dentro do nosso estado.

Mas talvez tenha chegado a hora de fazermos uma pergunta diferente.

Será que isso ainda faz sentido?

Hoje o Espírito Santo vive um momento completamente diferente daquele de vinte anos atrás. Somos frequentemente apontados entre os estados com melhor qualidade de vida do Brasil. Pessoas de todo o país escolhem morar aqui. Nossa gastronomia é reconhecida. Nossas praias, montanhas e cidades recebem cada vez mais visitantes.

O orgulho de sermos capixaba cresceu.

Mas, quando chega a hora do futebol, parece que esquecemos tudo isso.

Continuamos emprestando nossa paixão para clubes de outros estados.

Não estou dizendo que alguém deva abandonar o time pelo qual torceu a vida inteira. Futebol também é memória afetiva.

O que proponho é outra coisa.

Que o capixaba passe a olhar para os clubes daqui com carinho.

Que as famílias levem seus filhos aos estádios.

Que empresários apoiem nossos clubes.

Que o poder público compreenda o futebol como um patrimônio cultural e econômico.

E, principalmente, que cada um de nós entenda que fortalecer o futebol capixaba também é fortalecer a identidade do Espírito Santo.

Se conseguimos aprender a vestir nossa terra com orgulho, por que não podemos aprender a torcer por ela também?

Eu continuo acreditando na mesma ideia que me moveu há vinte anos.

O desenvolvimento de um estado não acontece apenas pela economia ou pela infraestrutura.

Ele também acontece quando seu povo aprende a admirar aquilo que é seu.

Foi assim com a revista.

Foi assim com a marca Praia.

E acredito que ainda pode ser assim com o nosso futebol.

Porque identidade não nasce pronta.

Ela é construída todos os dias.

E talvez esteja na hora de construirmos também uma identidade futebolística verdadeiramente capixaba.

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Sobre o blog/coluna
Hugo Vercoza é jornalista e dono da marca Praia Brasil a mais de 15 anos .
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