
O Espírito Santo já se encontra sob a influência direta do fenômeno El Niño, que deve ganhar ainda mais força nos próximos meses. Segundo dados apresentados pelas autoridades estaduais de monitoramento hídrico e meteorológico — em boletim conjunto que reúne a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan) —, o avanço da seca e o aumento das temperaturas acendem o alerta para o agronegócio e para o abastecimento público em diversas regiões capixabas. A distribuição das precipitações tem se mostrado bastante desigual pelo território. Enquanto a faixa Sul, a Região Serrana e trechos do litoral registraram acumulados entre 30 e 50 milímetros, os municípios do Norte, Noroeste e Centro enfrentam um cenário severo de estiagem, contabilizando até 23 dias consecutivos sem chuvas significativas, com temperaturas máximas variando entre 30 °C e 34 °C.
O avanço da estiagem fez com que a maioria dos municípios capixabas migrasse para a categoria de Seca Moderada. A retratação no volume das bacias hidrográficas reflete a gravidade do quadro: os rios Doce, Guandu e Jucu registraram uma queda média de 11% em suas vazões, enquanto os rios Santa Maria da Vitória, Benevente, Itapemirim e Itabapoana tiveram redução de 25% nos volumes acumulados. O Rio Santa Joana apresenta um dos quadros mais delicados do Estado, operando próximo à foz com a vazão crítica de apenas 8 litros por segundo.
Como segundo maior produtor de café do Brasil e referência mundial no cultivo do café conilon, o Espírito Santo tem o setor agrícola no centro das atenções. A combinação de altas temperaturas e estiagem prolongada atinge diretamente o manejo hídrico, ameaçando a irrigação, o período de floração e o enchimento dos grãos nas lavouras. Sem vazão suficiente nos rios para manter os sistemas de irrigação operando em capacidade plena, os cafeicultores capixabas enfrentam o risco real de perdas de produtividade na safra.
Diante desse cenário desafiador, o diretor-geral da Agerh, Fábio Ahnert, declarou oficialmente o Estado de Atenção Hídrica e reforçou a necessidade urgente de mobilização coletiva. “O momento exige responsabilidade compartilhada entre o campo e a cidade. Precisamos que os produtores rurais ajustem o manejo da irrigação para os horários de menor evaporação e que a população urbana elimine desperdícios no dia a dia para garantirmos a segurança hídrica do Estado”, destacou o gestor.
As recomendações oficiais para os produtores rurais incluem manejar a irrigação exclusivamente nos horários de menor evaporação — como durante a noite ou no início da manhã —, calibrar os equipamentos para evitar excessos nas lavouras, acompanhar os limites das outorgas de uso e adotar práticas de conservação do solo, das nascentes e das matas ciliares. Da mesma forma, as orientações voltadas para os moradores das áreas urbanas reforçam o combate imediato a vazamentos residenciais, a interrupção do uso de água potável para lavar calçadas, quintais e veículos, além da redução do consumo em tarefas rotineiras.
A situação exige cautela contínua também devido ao risco de queimadas e ao impacto no abastecimento. Dos 102 pontos de captação monitorados pela Cesan no Estado, 24 estão sob status de atenção e 3 atingiram o nível crítico, concentrados principalmente no Norte, Noroeste e Região Serrana. Embora a maior parte do sistema opere dentro da normalidade sem desabastecimento generalizado, a colaboração da população é considerada indispensável. Paralelamente, o monitoramento contabilizou 264 focos de queimada na última semana, com maior incidência em municípios como Linhares, Mantenópolis, Iúna e Sooretama, elevando o risco de incêndios florestais e agrícolas à medida que o período de estiagem avança.
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