
Em poucos anos o debate político brasileiro foi reduzido a uma escolha binária: de um lado o PT, de outro o PL e o bolsonarismo. O que deveria ser uma disputa de projetos virou uma disputa de identidades, em que votar tem menos a ver com propostas e mais com a rejeição ao outro lado. Vota-se para impedir a vitória do adversário, não para escolher quem governará melhor.
Os males são concretos. O primeiro é o empobrecimento do debate público: temas complexos, como reforma tributária, segurança, educação e equilíbrio fiscal, cedem lugar a slogans, ataques pessoais e desinformação. O segundo é o rompimento de laços sociais, com famílias que deixam de se falar e amizades desfeitas. A divergência, saudável numa democracia, passa a ser vista como ameaça moral, portanto geradora de medo. O terceiro é a paralisia institucional: governos gastam energia numa guerra permanente com o Congresso, o Judiciário e a imprensa, e o país perde a capacidade de formar consensos sobre o longo prazo.
A polarização também retroalimenta os extremos. Cada lado usa o outro como justificativa para o próprio radicalismo e para exigir lealdade irrestrita. Erros e escândalos são relativizados porque "o outro é pior". Sem o risco de perder eleitores, os partidos dominantes têm pouco incentivo para se corrigir.
Por isso é necessário fortalecer outras candidaturas. Uma democracia saudável depende de alternativas reais, capazes de competir, e não de nomes que existem apenas para marcar presença no primeiro turno. Candidaturas de centro, de centro-direita, de centro-esquerda ou de outras correntes dão ao eleitor a chance de escolher algo, e não só de rejeitar outro. Elas ampliam o leque de ideias, obrigam os maiores a dialogar e favorecem coalizões construídas em torno de programas, não de ódios.
Obviamente isso exige partidos que formem bons quadros, renovem lideranças e apresentem propostas claras o ano todo, não só em período eleitoral. Exige também um eleitorado disposto a olhar além do voto útil e a cobrar resultados de todos, inclusive de quem simpatiza.
O Brasil é grande e plural demais para caber em duas trincheiras. Reconstruir o meio-campo político não é negar divergências, mas devolvê-las ao seu lugar: a disputa democrática de ideias.
Posto isso, meu convite é para buscarmos ser mais cautelosos com o que dizem os candidatos e evitarmos que emoções formem nossos votos. Não percamos de vista o que realmente nos importa na política, que é a construção de uma agenda pública real, e não a mera troca de acusações.
Mín. 19° Máx. 25°